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Doação de sangue: qual o impacto do ferro no organismo?

Publicado em: 26/06/2026

A doação de sangue é um gesto de solidariedade que sustenta sistemas de saúde em todo o mundo, mas para que esse ato seja sustentável, a saúde do doador deve ser preservada com o mesmo rigor dedicado à segurança do receptor. Um dos principais pontos de atenção clínica nesse processo é o manejo do ferro, um componente essencial das células vermelhas, que sofre uma redução significativa a cada coleta (01; 02; 03). Veja a seguir algumas orientações importantes para manter a sua saúde caso seja doador de sangue!

A importância da doação de sangue

A doação voluntária de sangue é descrita como um ato altruísta e insubstituível, fundamental para a manutenção dos suprimentos de sangue necessários para tratamentos médicos e emergências. Como ainda não existe um produto sintético capaz de substituir integralmente as funções do sangue humano, o doador permanece como o elo indispensável na terapia transfusional. (02; 03; 04)

Por ser um processo essencialmente seguro, os doadores têm a expectativa legítima de que o procedimento não lhes cause danos físicos, o que torna o monitoramento de seus níveis de ferro uma prioridade ética para os bancos de sangue. (02)

O que acontece com o corpo após a doação de sangue?

Imediatamente após a coleta de uma unidade de sangue total (aproximadamente 450-500 mL), o organismo inicia um processo complexo de recuperação para restaurar o equilíbrio da quantidade de sangue e de suas células. A perda de glóbulos vermelhos impacta diretamente os níveis de oxigenação para todo o corpo e as reservas nutritivas de ferro. (01; 02; 05; 06)

Os principais impactos no organismo incluem:

● Perda substancial de ferro: cada doação remove cerca de 200 a 250 mg de ferro do corpo. Isso pode representar 25% do estoque total de ferro em homens, e podendo chegar a até 75% do estoque total em alguns casos em mulheres. (02; 05; 08) 
● Queda de células vermelhas (hemácias): ocorre uma redução imediata na concentração de hemácias, que geralmente atinge seu nível mais baixo (nadir) entre 3 a 8 dias após a doação. (06) 
● Mobilização de estoques: o corpo retira o ferro armazenado nos tecidos (chamado de ferritina) para produzir novas células vermelhas. (05) 
● Redução da ferritina: os níveis de ferritina caem significativamente, refletindo o esgotamento das reservas de ferro. (05) 
● Alterações sistêmicas: em alguns casos, a diminuição de ferro pode estar associada a cansaço, fadiga, dificuldade de realizar exercícios físicos, falta de ar, palidez, e até alterações cardíacas. (02; 06)

Por que doar sangue pode levar à deficiência de ferro

A deficiência de ferro ocorre quando a taxa de perda de ferro supera a capacidade do organismo de absorvê-lo através da dieta. Para doadores frequentes, a atividade de doação é o fator individual mais importante que afeta o status de ferro, superando a capacidade de reposição por meio da alimentação contendo ferro que uma pessoa consegue consumir (02; 07). Os principais motivos para o desenvolvimento dessa deficiência são:

Frequência das doações

Doar sangue sistematicamente (ex: a cada 2 ou 3 meses) mantém os estoques de ferro sob pressão constante, impedindo a recuperação total entre as coletas. (02; 05)

As regras oficiais dos hemocentros para doação de sangue são de no máximo a cada 2 meses para homens, e no máximo a cada 3 meses para mulheres, sendo em 1 ano o máximo de doações de 4 vezes para homens e de 3 vezes para mulheres, conforme a Portaria nº 158/2016 do Ministério da Saúde. (09)

Gênero e Fisiologia

Mulheres em idade fértil apresentam maior risco devido à perda adicional de ferro pela menstruação. (02; 04)

Dieta Insuficiente

A maioria dos doadores regulares não consegue repor o déficit de ferro apenas com a ingestão de alimentos ricos em ferro quando estas doações são frequentes e realizadas em intervalos curtos. (02)

Níveis de Base Baixos

Indivíduos que já iniciam a doação com níveis limítrofes de ferritina tendem a atingir a deficiência de ferro de forma mais rápida. (07)

Quando devo suplementar ferro?

A suplementação de ferro é uma estratégia eficaz para acelerar a recuperação das células vermelhas e dos estoques corporais. Estudos demonstram que, sem suplementação, a recuperação completa das reservas de ferro pode levar mais de 160 dias; com a suplementação de baixa dose, esse tempo pode ser reduzido para cerca de 76 dias. (02; 06)

De acordo com as fontes, a suplementação deve ser considerada especialmente para:

1. Doadores frequentes: homens que doam mais de três vezes por ano e mulheres que doam mais de duas vezes, ou seja, mesmo que o número máximo anual permitido não seja ultrapassado, doadores frequentes podem necessitar de suplementação para prevenir a deficiência de ferro, após o terceiro e segundo episódio, homens e mulheres, podem se beneficiar de suplementação de ferro para evitar a deficiência deste nutriente. (02) 
2. Grupos de risco: jovens e mulheres antes da menopausa. (02)
3. Níveis baixos de ferritina: quando os exames laboratoriais antes da doação, já indicam valor de ferritina abaixo do limite normal. (06; 07)

A recomendação geral das diretrizes internacionais (como a AABB) sugere o uso de baixas doses de ferro oral (aproximadamente 18 mg a 38 mg por dia) por um período de 60 dias após a doação de sangue total, especialmente em doadores frequentes ou grupos de risco, como medida de prevenção da deficiência de ferro. Vale destacar que é fundamental que essa suplementação seja orientada por um profissional da saúde, pois o uso indiscriminado pode mascarar outras condições clínicas ou ser contraindicado em casos de outras doenças do sangue não diagnosticadas. (02)

Doação de sangue: equilibrando o altruísmo e a autoproteção!

A doação de sangue é um ato vital, mas deve ser encarada com seriedade e um processo de cuidado contínuo. Manter a saúde do doador através da conscientização sobre os níveis de ferro e do uso criterioso de suplementos garante que esse "recurso heroico" continue disponível por muitos anos, protegendo tanto quem recebe o sangue quanto quem o oferece generosamente. (02)

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Fontes

01 – CANÇADO, R. D. et al. Deficiência de ferro em doadores de sangue. São Paulo Medical Journal, São Paulo, v. 119, n. 4, p. 132-134, 2001. DOI: 10.1590/S1516-31802001000400003.

02 – MANTADAKIS, E. et al. Iron Deficiency and Blood Donation: Links, Risks and Management. Journal of Blood Medicine, v. 13, p. 775-786, 2022. DOI: 10.2147/JBM.S375945.

03 – CANÇADO, R. D. et al. Avaliação laboratorial da deficiência de ferro em doadoras de sangue. Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia, São Paulo, v. 29, n. 2, p. 153-159, 2007. DOI: 10.1590/S1516-84842007000200014.

04 – PETERSEN, P. et al. Evaluating utility of routine ferritin testing in blood donors: A hospital-based blood donor centre experience. Transfusion Medicine, v. 34, n. 6, p. 491-498, 2024. DOI: 10.1111/tme.13081.

05 – MOUSINHO-RIBEIRO, R. C. et al. Impacto da doação de sangue nos depósitos de ferro do organismo de doadores. Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia, São Paulo, v. 30, n. 1, p. 61-69, 2008. DOI: 10.1590/S1516-84842008000100015.

06 – KISS, J. E. et al. Oral Iron Supplementation After Blood Donation: A Randomized Clinical Trial. JAMA, v. 313, n. 6, p. 575-583, 2015. DOI: 10.1001/jama.2015.119.

07 – MOAZZEN, S. et al. Ferritin Trajectories over Repeated Whole Blood Donations: Results from the FIND+ Study. Journal of Clinical Medicine, v. 11, n. 13, 3581, 2022. DOI: 10.3390/jcm11133581.

08 - KISS, J. E. Laboratory and genetic assessment of iron deficiency in blood donors. Clin Lab Med. 2015 Mar;35(1):73-91. doi: 10.1016/j.cll.2014.10.011. Epub 2014 Nov 5. PMID: 25676373; PMCID: PMC4451195.

09 - BRASIL. Portaria nº 158, de 4 de fevereiro de 2016. Redefine o regulamento técnico de procedimentos hemoterápicos. Diário Oficial da União: seção 1, p. 37-57, 5 fev. 2016.

Autor: Myralis
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