
A constipação intestinal (CI), frequentemente referida como "prisão de ventre" ou "intestino preso", é uma queixa bastante comum que afeta uma parcela significativa da população global. Embora não seja, em si, uma doença, mas um sintoma, a CI gera considerável desconforto e pode ter um impacto na qualidade de vida dos indivíduos (1; 2; 3).
Sua prevalência varia, dificultando a determinação do número real de afetados, mas estudos indicam que atinge cerca de 36,8% da população brasileira e 20% da população mundial. Dada a sua complexidade e a tendência à automedicação, muitas vezes sem a devida orientação profissional, é crucial desmistificar conceitos e promover o entendimento sobre o manejo adequado da constipação intestinal (4).
O que é constipação intestinal?
A constipação intestinal é um distúrbio gastrointestinal comum que pode afetar pessoas de todas as idades, caracterizado por uma diminuição na frequência das evacuações e/ou dificuldade para evacuar, resultando em fezes ressecadas e endurecidas. Embora constitua uma queixa frequente em qualquer idade, desde crianças e adolescentes, mulheres jovens, grávidas e mulheres na pós-menopausa, sendo menos frequente na população masculina (1; 5).
Sintomas comuns e sinais de alerta
A constipação intestinal é caracterizada por (11):
- Evacuações infrequentes;
- Esforço excessivo;
- Fezes endurecidas;
- Sensação de evacuação incompleta.
Segundo os critérios de Roma IV, esses sintomas devem estar presentes por pelo menos três meses, com início há seis meses ou mais, para que o quadro seja considerado crônico (11).
Embora seja comum e muitas vezes funcional, é importante estar atento a sinais de alerta que indicam a necessidade de investigação médica (11):
- Mudança súbita no hábito intestinal;
- Dor intensa ao evacuar;
- Presença de sangue nas fezes;
- Perda de peso não intencional;
- Idade acima de 50 anos no início dos sintomas;
- Histórico familiar de câncer colorretal.
Reconhecer os sintomas e diferenciar situações funcionais de sinais de risco é fundamental para orientar o tratamento adequado e garantir mais segurança ao paciente (11).
Principais causas da constipação
A constipação intestinal é um problema multifatorial, resultante de uma complexa interação de elementos (1). As principais causas incluem:
- Estilo de vida e dieta: a vida sedentária, problemas nutricionais, diminuição da ingestão de líquidos e fibras alimentares, ausência de condicionamento para o ato de defecar e uma dieta inadequada são fatores marcantes. O menor consumo de vegetais e leguminosas, que fornecem resíduo para o bolo fecal, compromete o volume das fezes e o estímulo para a evacuação (4; 7).
- Uso de medicamentos: diversos fármacos podem iniciar ou agravar a constipação. Exemplos incluem antiácidos, anticolinérgicos, antidepressivos, anti-histamínicos, anti-inflamatórios não hormonais, compostos de ferro, diuréticos, opioides, psicotrópicos, anticonvulsivantes, entre outros (1; 4).
- Doenças e condições médicas: alguns exemplos são distúrbios colônicos, neurogênicos e endócrinos; alterações anatômicas como tumores, fissuras anais, hemorroidas e malformações retais; doenças neurológicas como Parkinson, AVC e demência; doenças metabólicas e endócrinas; distúrbios musculares (miopatias); Síndrome do Intestino Irritável (SII); transtornos psiquiátricos, entre outros (1; 3).
- Fatores psicossociais e comportamentais: a inibição do reflexo defecatório (devido a falta de tempo, banheiros desconhecidos ou desejo de não interromper atividades), a vida agitada, problemas financeiros e o aumento da dependência física, especialmente em idosos, figuram entre os fatores predisponentes (1; 6).
- Idade e gênero: a constipação é uma queixa frequente em crianças, idosos, mulheres jovens, grávidas e mulheres na pós-menopausa, sendo menos comum na população masculina (4; 7).
Mitos e verdades sobre constipação intestinal e laxantes
A constipação intestinal é cercada por diversas crenças populares, muitas vezes equivocadas, que influenciam a automedicação e o manejo da condição (3). É importante distinguir entre o que é amplamente aceito e o que é clinicamente comprovado.
Usar laxante sempre faz mal?
Mito, mas com ressalvas importantes. Laxantes são ferramentas úteis no manejo da constipação, podendo aliviar os sintomas e, em alguns casos, são medicamentos indicados. No entanto, o uso abusivo, indiscriminado e prolongado é amplamente desaconselhado e pode ser prejudicial à saúde, pois ele pode mascarar problemas de saúde mais graves, atrasando um diagnóstico preciso (1; 2; 4).
Laxante vicia o intestino?
Embora o termo "vício" (ou adição) possa não ser clinicamente preciso, já que as substâncias dos laxantes geralmente não atravessam a barreira hematoencefálica, a ideia de que o intestino pode se tornar dependente é verdadeira. Isso porque o uso crônico e abusivo de laxantes, principalmente os estimulantes, pode levar a uma série de alterações que resultam em dependência funcional (3).
Só quem come mal tem prisão de ventre?
Mito. Embora uma dieta pobre em fibras seja um fator de risco significativo e um contribuinte importante para a constipação, não é a única causa. A constipação intestinal é multifatorial e pode afetar indivíduos com hábitos alimentares saudáveis e estilo de vida ativo (1; 8).
Tomar laxante resolve o problema rapidamente?
Verdade em relação ao sintoma, mas mito em relação à solução definitiva. Laxantes podem, de fato, promover evacuações de forma rápida e eficaz. No entanto, essa ação se concentra em aliviar o sintoma (a dificuldade de evacuar) e não em tratar a causa subjacente da constipação. O tratamento ideal da constipação deve focar na identificação e correção das suas causas, priorizando medidas não farmacológicas (1; 5; 7).
Quando o uso de laxantes é indicado
A abordagem terapêutica para a constipação intestinal é preferencialmente não medicamentosa. Os laxantes devem ser utilizados como coadjuvantes do tratamento e não como a primeira linha de ação (1).
O tratamento com laxantes é considerado quando as medidas não farmacológicas não são suficientes para aliviar o problema. Para isso, é indispensável uma avaliação médica criteriosa para determinar a causa da constipação (1; 4; 9).
Uso ocasional x uso crônico: diferenças e cuidados
A indicação para o uso de laxantes deve diferenciar entre situações agudas e crônicas.
O uso ocasional é geralmente aceitável para o preparo pré-operatório, procedimentos radiológicos e endoscópicos intestinais, ou para constipação aguda decorrente de mudanças alimentares, diminuição da atividade física ou uso de medicamentos no pós-operatório, onde a normalidade é restabelecida espontaneamente (1).
O uso crônico deve ser evitado e desencorajado. Isso porque o uso prolongado pode levar a riscos como degeneração neuronal do cólon e distúrbios hidroeletrolíticos (1; 10).
Tipos de laxantes e seus mecanismos
- Formadores de massa (ou expansores do bolo fecal/agentes hidrofílicos): são fibras alimentares ou medicinais que absorvem água no lúmen intestinal, aumentando o volume e amolecendo as fezes. Isso estimula mecanicamente o peristaltismo e facilita o trânsito. São considerados os que mais se aproximam dos mecanismos fisiológicos da evacuação (9).
- Emolientes (ou lubrificantes): agem amolecendo as fezes e facilitando sua passagem, muitas vezes diminuindo a tensão superficial (1; 9).
- Osmóticos (ou sais osmóticos): são drogas não absorvíveis que provocam a retenção de água no interior das fezes por atividade osmótica, aumentando o volume e estimulando o peristaltismo (4).
- Estimulantes (ou irritantes/catárticos): atuam diretamente na mucosa colônica ou no plexo mioentérico, aumentando a motilidade intestinal e diminuindo a absorção de água e NaCl. Sua ação é geralmente rápida (4; 5).
Alternativas saudáveis para melhorar o trânsito intestinal
As intervenções não farmacológicas representam a primeira linha de tratamento e são a base para o manejo eficaz e duradouro da constipação intestinal, tais como (1; 4; 8) :
- Alimentação rica em fibras;
- Hidratação adequada;
- Prática de atividade física;
- Reeducação intestinal;
- Controle do estresse;
- Orientação profissional.
Constipação intestinal em diferentes públicos
A constipação intestinal afeta diversas faixas etárias e gêneros, com particularidades em cada grupo. A prevalência é notável em crianças, idosos e mulheres (1; 7).
- Crianças e Adolescentes: a constipação é um distúrbio comum na pediatria, responsável por 3% das consultas pediátricas e 25% das consultas de gastroenterologia pediátrica. A maioria dos casos é de constipação crônica funcional, e os sintomas podem se iniciar no primeiro ano de vida (1).
- Idosos: apresentam uma prevalência acentuada de constipação. Embora não esteja necessariamente ligada apenas ao envelhecimento, resulta de uma combinação de fatores como modificações fisiológicas, doenças e uso de medicamentos (1; 10).
- Mulheres: apresentam uma prevalência de constipação significativamente maior que os homens (2,5 vezes mais, com 36,8% vs. 13,9% como indica em um estudo em Pelotas, Brasil). As mulheres tendem a ser mais sintomáticas e a apresentar um número maior de critérios diagnósticos positivos. A constipação pode ocorrer na infância, juventude, gravidez e pós-menopausa, com aumento da prevalência com o passar dos anos (4; 6; 7).
Constipação intestinal: trate a causa, não apenas o sintoma
A constipação intestinal não é um distúrbio simples, sendo, na verdade, multifatorial. A compreensão dessa complexidade é crucial para um manejo eficaz, que deve ir além do mero alívio dos sintomas (1).
O tratamento bem-sucedido da constipação intestinal exige a identificação e correção da causa subjacente, e não apenas a mitigação dos sintomas. Ignorar a etiologia pode levar à persistência do problema, ao agravamento do quadro e ao desenvolvimento de complicações. A presença de sinais de alarme (como sangramento retal, perda de peso, febre) deve ser investigada rigorosamente para descartar doenças graves, incluindo o câncer colorretal, que, embora raro como causa de constipação recente, é uma possibilidade a ser considerada. A abordagem inicial para a maioria dos pacientes deve ser clínica, focando em correções nos hábitos de vida, que muitas vezes são suficientes para normalizar o ritmo intestinal (1; 2; 4; 7; 8).
A automedicação com laxantes é uma prática comum e preocupante. Embora os laxantes possam proporcionar alívio rápido, seu uso indiscriminado e sem orientação profissional acarreta riscos significativos. A melhor estratégia para o manejo da constipação intestinal é a promoção de hábitos saudáveis e a busca por orientação profissional qualificada (1; 4; 8).
Fontes
1 – DINIZ, E. M. S. R. R. Constipação intestinal: uma revisão. Monografia de Especialização em Saúde Pública, Faculdade de Farmácia, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2008. Acesso em: https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/BUBD-9WFGV3.
2 – PINHEIRO, A. K. et al. Constipação intestinal: tratamento com fitoterápicos. Rev Cient FAEMA: Revista da Faculdade de Educação e Meio Ambiente - FAEMA, Ariquemes, v. 9, p. 559-564, maio/jun. 2018. DOI: https://doi.org/10.31072/rcf.v9iedesp.598.
3 – SANTOS JÚNIOR, J. C. M. Constipação intestinal. Ver. Bras. Coloproct., Rio de Janeiro, v. 25, n. 1, p. 79-93, jan./mar. 2005. Acesso em: https://www.jcol.org.br/pdfs/25_1/14.pdf.
4 – AJALA, E. R.; MONTEIRO, C.; PORSCH, S. A. G. Indicação farmacêutica de medicamentos isentos de prescrição para o tratamento da constipação intestinal. Revista Interdisciplinar em Ciências da Saúde e Biológicas, [S. l.], v. 2, n. 2, p. 1-17, jul./dez. 2018. DOI: http://dx.doi.org/10.31512/ricsb.v2i2.2821.
5 – MARQUES, S. J. G. N. S. Manejo da constipação intestinal: uma revisão de escopo. Monografia de Especialização em Enfermagem em Estomaterapia, Escola de Enfermagem, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2023. Acesso em: https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/58984.
6 – COLLETE, V. L.; ARAÚJO, C. L.; MADRUGA, S. W. Prevalência e fatores associados à constipação intestinal: um estudo de base populacional em Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil, 2007. Cadernos de Saúde Pública, v. 26, n. 7, p. 1391-1402, jul. 2010. DOI: https://doi.org/10.1590/S0102-311X2010000700018.
7 – QUÍLICI, F. A.; QUÍLICI, L. C. M. Constipação intestinal funcional. In: FEDERAÇÃO BRASILEIRA DE GASTROENTEROLOGIA. Desafios terapêuticos na prática do gastroenterologista. Federação Brasileira de Gastroenterologia, Capítulo 18, p. 156-169. DOI: https://doi.org/10.22288/9788520456507000018.
8 – SOARES, A. K. A. et al. Hábitos alimentares e uso de laxantes em pacientes com constipação intestinal funcional. Revista Brasileira de Nutrição Clínica, São Paulo, v. 24, n. 1, p. 43-48, jan./mar. 2009. Acesso em: https://revistas.cff.org.br/infarma/article/view/111.
9 – LACERDA, F. V.; PACHECO, M. T. A ação das fibras alimentares na prevenção da constipação intestinal. In: ENCONTRO LATINO AMERICANO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA E ENCONTRO LATINO AMERICANO DE PÓS-GRADUAÇÃO, São José dos Campos: Universidade do Vale do Paraíba, 2006. p. 2466-2476. Acesso em: https://www.inicepg.univap.br/cd/INIC_2006/epg/03/EPG00000435-ok.pdf.
10 – BONET, S.; DIEFENTHAELER, H. S. Avaliação do uso de medicamentos laxantes em grupos de idosos de Barão de Cotegipe-RS. Perspectiva, Erechim, v. 39, n. 145, p. 97-107, mar. 2015. Acesso em: https://www.uricer.edu.br/site/pdfs/perspectiva/145_485.pdf.
11 - FERNANDES, M. C. S. et al. Síndrome do intestino irritável: diagnóstico e tratamento. Revista Eletrônica Acervo Saúde, v. 12, n. 5, 2020. DOI: https://doi.org/10.25248/reas.e2964.2020.




